Se bem se recordam, começámos a explorar este maravilhoso mundo na companhia do nosso David Attenborough e é na companhia dele que continuamos hoje... Dá-lhe David!!!
Estamos de volta a esse misterioso ecossistema que é a estrada portuguesa... Hoje vamos conhecer algumas das espécies que se movimentam nas vias alcatroadas desta extraordinária e exótica nação durante os fins-de-semana...
Este período de tensa e excitante actividade começa com a madrugada de sexta-feira para sábado e prolonga-se até ao final da tarde de domingo...
Comecemos então pela madrugada de sexta para sábado:
Pelas estradas portuguesas reina uma aparente calma que está prestes a ser interrompida... Em algumas rotundas, entroncamentos e outros pontos estratégicos aguardam, sorrateiramente, alguns predadores do topo da hierarquia... Os BT's!
Os BT's caracterizam-se pela sua camuflagem diversificada e eficaz, bem como pela utilização das mais modernas armadilhas: radares, pirilampos, cones de sinalização e... balões!
As suas principais presas são os Aceleras se bem que também se contentem com os Tunings (da família dos aceleras), os borrachões e os azelhas. O lema desta temerária espécie é: Tudo o que vier à rede é prevaricador! Normalmente as presas deixam-se capturar sem encontrar grande escapatória. Se algum espécimen capturado tentar libertar-se da garra dos BT's imediatamente perde qualquer hipótese de liberdade pois estes predadores fazem uso da sua notável e letal capacidade de argumentação. Frases como: "O senhor condutor faça o favor de se ausentar para fora da sua viatura" são célebres e capazes de deixar sem argumento o mais inconformado dos condutores.
Por vezes os BT's deparam-se com presas que desobedecem à ordem de paragem e encentam espantosas perseguições que terminam, invariavelmente, com a utilização de armas de fogo, normalmente com a mira desregulada já que os tiros não acertam nos pneus...
Existem duas espécies da família dos BT's, os GNR's e os PSP's.
Os cientistas e estudiosos das estradas portuguesas acreditam que os primeiros são uma das mais antigas espécies e também uma das mais exóticas. Sendo predadores, os GNR's, facilmente identificáveis pelas protuberâncias estomacais e farta pilosidade sub-nasal, atacam preferencialmente nas áreas rurais, aproveitando os dias de feira para desferir os seus mortais golpes de balão. Como devem imaginar as suas vitimas principais são os borrachões.
Os PSP's estão para os GNR's assim como o rato da cidade está para o rato do campo. Estes fazem valer a sua capacidade de deslocação a pé para atacar as suas vítimas (os espertinhos) das mais diversas formas. Entre as estratégias de ataque destacam-se: os autos - um pequeno papel que faz com que as vítimas se desloquem ao covil do predador, os bloqueadores - que impedem o movimentos das presas, e os reboques - que carregam a presa para mais tarde devorar.
Estas não são, contudo, as únicas espécies a circular nas estradas portuguesas nesse fértil período de observação de comportamentos.
As madrugadas de sexta para sábado e de sábado para domingo são profícuas em avistamentos de aceleras, tunings e borrachões e, também, de espécies híbridas que surgem do cruzamento daquelas três.
Entre todos devemos destacar a espécie que resulta do cruzamento dos aceleras com os borrachões. Este ser, que se reproduz na noite, tem um comportamento semelhante ao de um coelho que acabou de fumar um charro, isto é, potência descontrolada...
O comportamento literalmente acelerado desta espécie tem como objectivo primordial impressionar as fêmeas e acaba, invariavelmente, num de três lugares: 1º - na cama de um motel, num caminho florestal, numa praia deserta ou num beco mal amanhado; 2º - nas garras do seu principal predador, os BT's; 3º - contra um poste!
Ainda que estas espécies pareçam bastante estimulantes, nada se pode comparar nem nos deixa preparados para o ponto alto da vida agitada dos fins-de-semana...
Aos domingos, logo pela manhã, surgem os... Domingueiros! A explicação do seu nome é desnecessária mas o seu complexo comportamento é, ainda hoje, tão intrigante que nenhum grupo de estudiosos conseguiu formular uma teoria universalmente aceite.
Esta excêntrica criatura, muito diversa na sua aparência, tem um comportamento que se assemelha ao da preguiça... Desloca-se a velocidades absolutamente entediantes, é capaz de utilizar dois neurónios em simultâneo e revela uma total falta de conhecimento das leis da estrada e do funcionamento dos seus veículos. É relativamente frequente Domingueiros serem alvos de BT's que, no entanto, não se alimentam deles - Ao que parece estes predadores limitam-se a utilizar os domingueiros como brinquedo...
A mais extravagante demonstração dos domingueiros, ainda assim, está relacionada com todas as outras espécies que vagueiam pelas estradas. E que maravilhoso acontecimento é esse afinal? A formação de enormes séquitos que os seguem fielmente, enquanto observam, com ar enbasbacado, todos os pormenores das paisagens que os rodeiam. Crê-se que estas procissões possam ser formadas espontaneamente mas, até aos dias de hoje, não foi possível comprovar que os seguidores se submetem a tão masoquista ritual com intencionalidade...
Na próxima edição abordaremos as espécies que pululam nas estradas durante a semana, das primeiras horas da manhã até às extensas filas do final da tarde!