quarta-feira, maio 16, 2007
segunda-feira, maio 07, 2007
História Devida
Passo a explicar o motivo da alegria.Há dois meses descobri um programa da Antena 1, o História Devida, baseado num conceito do escritor Paul Auster:"A História Devida é um programa diário da RDP, apresentado por Miguel Guilherme e por Nuno Artur Silva, que se baseia num conceito posto em prática por Paul Auster nos Estados Unidos da América. A ideia passa por pedir aos ouvintes da RDP que enviem as suas próprias histórias para serem lidas em antena por Miguel Guilherme. A História Devida depende, assim, da participação dos ouvintes, já que o programa é praticamente «feito» por eles.Regras, há só duas: as histórias têm que ser curtas e têm que ser reais, e a sua selecção depende não de critérios literários, mas sim do mérito e da humanidade das mesmas. A História Devida não é nem um concurso nem uma competição. Ninguém anda à procura dos novos talentos da ficção portuguesa. O que verdadeiramente importa é que as histórias enviadas sejam histórias de vida – da vida dos ouvintes.Quanto ao mais, não há restrições de conteúdo nem de forma. As histórias podem ser episódios cómicos, tristes ou brutais; gaffes hilariantes ou mágoas profundas; pequenos ou grandes dramas; coincidências bizarras ou inesperadas; sonhos, pesadelos, pressentimentos, intuições ou premonições. Podem ser sobre a velhice ou sobre a infância, sobre a amizade, o ódio ou o amor; e podem ter a forma de poemas, diálogos, narrativas ou pequenos relatos. Podem ser escritas num estilo seco ou elegante, irónico ou sincero… Enfim, a lista de possibilidades é infinita".Assim que ouvi a primeira história, fiquei apaixonada pela ideia, e decidi participar. Enviei o meu texto, e soube hoje que foi seleccionado, e que irá para o ar no dia 11 de Maio às 17h20, com repetição às 21h20 e às 2h20. No dia anterior volto a postar sobre este assunto.Uma coisa é certa: este blogue deixará de ser o mesmo, uma vez que vou dar a conhecer a minha verdadeira identidade. Lá se vai o anonimato! Só espero que não me ponham processos em cima!Para quem ficou curioso com o programa mas não pode ouvir na rádio, no site da Antena 1 estão sempre disponíveis as histórias da semana.Mas há mais: as histórias seleccionadas já foram publicadas neste livro:... e vai haver outro livro, onde a minha "piquena" história vai estar!:)
Até amanhã, e boas histórias!
Porque copiei um post na íntegra de outro blog para o meu?
Porque... No dia quinze de Maio é a vez da MINHA HISTÓRIA!!!!!
Hehehehe!
Estou "cheio de feliz"!
Assim falou
Touro Zentado
eram
21:21
16
Comentários
quinta-feira, abril 12, 2007
Um conto
A rádio está sintonizada na estação do costume. Por entre pensamentos, desabafos e uma ou outra bolacha vai ouvindo as músicas que se sucedem, os comentários do locutor, a publicidade. A eterna e enfadonha publicidade.
Passa a hora, muda a equipa na rádio. Sai o locutor, entra um par. Ele e ela.
A partir daqui a viagem vai correr num instante. Ouve cada música e cada palavra com redobrada atenção. Procura pistas.
Na sexta-feira passada alguma coisa lhe prendeu a atenção. O locutor disse qualquer coisa do género:
- Vamos ouvir a música Shoot me Down, dos Boy Kill Boy...
Ela interrompeu-o:
- Esta música é fantástica, daquelas que me faz cantar a plenos pulmões. É das minhas preferidas...
- Eu sei - diz ele.
A voz dele parecia embevecida e comprometida.
Mais comprometido foi o silêncio que se seguiu.
Passaram-se cinco longos segundos até que a música começasse.
Achou aquela situação muito estranha. Pareceu-lhe uma espécie de declaração muito embaraçada. Muito tímida.
Logo a seguir pensou: Oh! Que parvoice! Claro que não é dedicatória nenhuma! Só ficaram sem nada para dizer e provavelmente estavam com problemas técnicos.
Quando este pensamento se diluiu na sua mente dedicou alguma atenção à letra.
You never knew never knew never knew
You never should never should never should
I needed someone, someone to be here
Always
When the sun's down, someone to pick up
Pieces
Quando a música terminou a emissão continuou a um ritmo aparentemente normal...
No que restou de viagem continou a procurar pistas na emissão da rádio mas nada lhe pareceu significativo.
Agora ia começar mais uma busca às pistas do romance que criou na sua imaginação. O locutor da rádio estava apaixonado pela sua colega de equipa mas a timidez que impedia a declaração do amor em privado quebrava-se, ainda que de forma dissimulada, perante milhares de ouvintes.
O locutor também escrevia uma crónica semanal num jornal. Era esse o dia. Tinha decidido - Vou comprar o jornal... Quem sabe na crónica que ele escreve não aparece nada que me ilumine a investigação...
Espero não ter desiludido...
Aqui ficam a música e a letra... Podem servir de inspiração...
Assim falou
Touro Zentado
eram
22:11
7
Comentários
terça-feira, abril 10, 2007
Conto Comunitário...
Quem alinhar diga qualquer coisa nos comentários...
Assim falou
Touro Zentado
eram
22:58
13
Comentários
segunda-feira, abril 02, 2007
David, o Camaleão - II
Mas... As mudanças eram o seu ponto forte e o seu ponto fraco! David era, ele próprio, um enigma!
Os dias foram passando e David parecia viver em Marte. Desde que o sol nascia até que caía no mar David não pensava noutra coisa. A extraordinária complexidade do seu ser surpreendia-o e angustiava-o.
David até começou a descurar a sua capacidade de disfarce... Parecia um rebelde, rebelde sem causa...
Como não via solução para o seu problema David procurou ajuda para compreender e resolver o seu problema...
Foi assim, procurando ajuda, que David entrou no templo.
Antes mesmo de perguntar o quer que fosse ao divino Homem das Estrelas David ouviu-o, pelo sistema sonoro. O Homem das Estrelas, o super-deus dos camaleões, era conhecido por adivinhar as dúvidas e questões dos seus seguidores. Mas também era conhecido por abusar do ácido... A voz do Major Tom, assim se chamava o Homem das Estrelas ecoou pelo oco interior do embondeiro: - These are your Golden Years! You should be a Hero!
David respondeu: - O que quer dizer com isso ó Mestre do Disfarce? Mas o sistema de som não pareceu responder... Transmitia apenas uma música de fundo: ...Fame...
Deve ter abusado dos ácidos - pensou um abatido David - Sem a ajuda do Mestre do Disfarce, o que vai ser de mim? Qual é a resposta para o sentido da minha vida?
À noite, na copa de uma qualquer árvore da floresta David lá apareceu no convívio para o qual os amigos o tinham convidado. Tinham achado David muito pálido. Isso num camaleão era cromaticamente perigoso... Nem mesmo o truque que David criara para sossegar os amigos, aparecer com um olho de cada cor, os deixara mais aliviados...
A festa estava a ser uma seca para David. Estava. Até ao momento que uma voz doce o despertou para o mundo - Let's dance? - Era uma rapariga da China chamada Na Ta Lin.
David aceitou! Foi dançar com a rapariga da China. O olhar calmo dela, a tranquilidade da sua voz, a certeza nas palavras, enebriaram David.
Quando voltou para junto dos colegas foi recebido com olhares de espanto! David mostrava a melhor camuflagem de sempre! Na sua pele rebentavam fogos de artifício e os olhos eram mágicos caleidoscópios...
Assim falou
Touro Zentado
eram
23:09
7
Comentários
terça-feira, março 20, 2007
David, o Camaleão
David disfarça-se lindamente na paisagem que o rodeia.
Os amigos chamam-lhe David "Bou Aí". A alcunha explica-se: Bou (com sotaque do Norte da ilha em que ele vive) Aí porque quando era pequeno e os amigos lhe ligavam a saber se podiam ir a casa dele, logo respondia (na ânsia de experimentar cenários novos) eu é que bou aí!
Quando era pequeno David era deixado de fora na hora de jogar às escondidas... Os colegas fartavam-se de o procurar...
David foi um aluno que passou despercebido. Os professores marcavam-lhe sempre falta!...
As primeiras namoradas diziam que nunca sabiam o que David sentia. Diziam que ele disfarçava muito bem e que, portanto, nunca sabiam quando falava a sério ou mentia. Mas o David nunca corava... Bem, pelo menos é o que os conhecidos acham.
O que David mais gosta de fazer é descobrir paisagens e padrões novos! Começou pelo amarelo-banana, quando uma vez, por acidente, caiu em cima de um cacho. Daí passou para o preto-alcatrão, com um linha descontínua no dorso e por aí adiante.
Mas o David também gosta muito de pensar. Pensar na vida...
Há uns dias atrás, deitado num calhau, à sombra de um coqueiro (David não gosta de sol, apesar de ser um réptil. Diz ele que lhe dá cabo da capacidade de camuflagem...) David pensava na sua mais recente angústia. David achava extraordinário como era capaz de se adaptar tão bem ao meio que o rodeia e, ao mesmo tempo, tão avesso a mudanças. É que logo que o David se mudava adaptava-se, e ao adaptar-se acomodava-se. E apesar de desejar experimentar paisagens novas, tinha o receio de não fazer camuflagens suficientemente boas...
(continua... ou não... dependendo das reacções!)
Assim falou
Touro Zentado
eram
18:49
9
Comentários
quinta-feira, março 08, 2007
Uma curta Vida longa
Eu estava preparar-me para começar a aula. Ele tinha terminado.
Começou a falar comigo. Aquele tipo de conversa de circunstância para quebrar o silêncio constrangedor.
Eu respondi-lhe por educação, já que não sou de muitas palavras e o senhor continuou a falar comigo. A determinada altura disse uma coisa que me despertou mais para a conversa:
- Sabe? A gente devia poder decidir quando partia. Íamos ao médico e diziamos que queriamos morrer dali a uns dias. Faziamos uma festa, divertiamo-nos, saíamos sem ninguém dar por ela, deitáva-mo-nos na nossa cama e pronto!
Achei graça à ideia e concordei com um sorriso. Antes que pudesse dizer alguma coisa o senhor falou mais uma vez, desta vez com um sorriso triste e conformado na expressão:
- Sabe, quando se chega à minha idade vê-se uma lista tão grande de coisas que ainda se quer fazer! E o tempo foge-nos por entre os dedos!...
Mais uma vez concordei. Se eu penso, aos meus trinta anos, que já vivi três décadas e acho que a vida humana é curta então o que fará aquele senhor!
- Olhe que mesmo que compreenda o que lhe digo só vai perceber realmente quando chegar a esta idade!...
De novo a força da realidade impediu-me de dizer o que quer que fosse!
O senhor ficou pensativo por uns instantes. Eu também. Eu pensava: pobre homem! Vê a vida a acabar-se-lhe! Ele pensava: Pobre rapaz! Só vai perceber o valor do que tem quando o perder...
- Gostava de poder ouvir todos os dias o que os meus pais sempre me disseram! Não tive a oportunidade de gravar as vozes deles!... Agora restam-me as memórias... Tem filhos?
- Não - disse-lhe eu - mas espero ter.
- Quando tiver, filme-os! Grave-os! Mas grave-se a si também! Vai ver que eles lhe vão agradecer!...
Sorri mais uma vez. Neste momento sentia-me um neto sentado no colo do avô... Guardava cada frase e cada expressão que aquele rosto gasto me dava.
- Mas, sabe uma coisa? - O senhor mudou de registo, de repente - É preciso que se agarre à vida com tudo! Há dois anos sofri um AVC! Não falava, não me mexia... Nem conhecia a minha mulher! - a cara dele era todo um ponto de exclamação - Mas agarrei-me à vida! Quero viver! Ontem, pela primeira vez desde há muito tempo, consegui escrever uma carta em cinco minutos! - A insignificância de escrever uma simples carta em cinco minutos transformou-se, ao ouvir aquele homem, numa epopeia!
Senti o orgulho dele como se sente o calor do sol matinal. Que bom ver uma pessoa da idade daquele senhor a sorrir, a lutar, a amar cada minutinho...
Cada vez que abrimos os olhos de manhã...
Cada vez que fazemos pequenas coisas...
Cada vez que o mundo nos surpreenda...
Assim falou
Touro Zentado
eram
23:34
8
Comentários
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Resposta às Propostas II - As guerras a sério
Assim falou
Touro Zentado
eram
13:08
9
Comentários
Resposta às Propostas I - Os Óscares e os seus Marretas
Assim falou
Touro Zentado
eram
12:44
3
Comentários
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Uma lágrima de chuva
Na sua pátria de nascimento aprendeu a gostar da sua pátria de raiz. Cresceu, fez-se homem, fez homens. A sua ligação mais que umbilical à terra que o quis ver nascer fê-lo regressar sempre que pôde para matar saudades dos seus.
Aos que estão do lado de cá chegou sempre com um sorriso, uma brincadeira, um abraço. Nós, os que o recebemos, retribuimos-lhe... Voltou a partir para a sua casa de adopção. Lá criou a sua família, viu a sua família criar outras. E pelo meio de venturas e desventuras, sempre que pôde, voltou para o seu meio.
O outono da sua vida aproximou-se mais cedo do que devia. Quando os ramos que de si cresceram brotavam as primeiras folhas. Com o outono logo veio o inverno. Frio. Escuro. Chuvoso. Mas o sol da sua alegria sempre brilhou por trás das nuvens.
Tenho a certeza que por estes dias, quando a sua essência abandonou a matéria que o recebeu fez uma grande viagem. Voltou, deslizando pelos ares. Voltou para a sua terra. Passou o oceano. Chegou até nós. Tenho a certeza que quando aqui chegou, a sua essência, visitou todos os que sempre o receberam. Ainda que não o consigamos ver ele viu-nos a nós. Sorriu. Deixou cair uma lágrima que para nós pareceu um triste pingo de chuva.
Assim falou
Touro Zentado
eram
21:25
5
Comentários
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Nem sei que título devo dar... - Parte II
Assim, considerando estas distâncias dignas de etapa do Lisboa-Dakar, o senhor estava praticamente condenado à morte... Senão comparemos: na etapa de terça-feira do dito rally Carlos Sousa, com problemas mecânicos incluídos, demorou cinco horas a fazer quatrocentos quilómetros pelas magníficas estradas da Mauritânia! Como podem as pessoas admirar-se que um acidentado com múltiplos focos de contusão cerebral demore meras sete horas a chegar a um hospital em Lisboa?!
O que dizem as entidades responsáveis(?!):
O Ministério da Saúde concluiu, num comunicado divulgado esta quarta-feira, que foi correcto o socorro prestado a um homem vítima de acidente na zona de Odemira, que viria a falecer, a semana passada, afastando a hipótese de realização de um inquérito.Inquérito para quê? Já toda a gente percebeu! O homem teve um azar do caraças!
Segundo o Ministério da Saúde, durante a assistência ao homem que foi vítima do acidente este fim-de-semana, «foram proporcionadas as medidas de estabilização apropriadas, sem as quais o sinistrado nem sequer teria condições para suportar a viagem».O senhor que foi atropelado ainda devia estar grato por lhe terem garantido uma viagem até Lisboa!
O ministério assume que «a gravidade do acidente e a distância a que ele ocorreu de um centro hospitalar com capacidade de intervenção neurocirúrgica, condicionaram, sem dúvida, o tempo que mediou entre a ocorrência e a entrada no hospital de destino».A gravidade do acidente e a distância a que ocorreu condicionaram sem dúvida... O desfecho fatal que se deveu essencialmente à gravidade das lesões iniciais... Isto é: a culpa é do senhor! Para a próxima vá viver para perto de um centro hospitalar ou então procure ser atropelado com menos violência... Ahh! É verdade! Não vai haver próxima para este senhor!
«Não existe, todavia, evidência de que esse lapso de tempo, bem como as manobras entretanto executadas pudessem ter influenciado o desfecho fatal, o qual se deveu essencialmente à gravidade das lesões iniciais», refere o documento.
O presidente da câmara sublinha que, na reunião, todas as partes admitiram que é demasiado grande a distância até ao hospital mais próximo com serviço de neurocirurgia, que se encontra em Beja. Mas acrescenta que seria impossível manter aumentar o número de médicos ou ter um helicópetro permanentemente disponível.Portanto... não há nada a fazer! Resta esperar que ninguém, no concelho de Odemira (onde, já agora, ficam zonas turísticas bastante frequentadas como Vila Nova de Mil Fontes ou locais de autêntica romaria como a Zambujeira do Mar - Festival do Sudoeste), seja atropelado com esta gravidade! Eu proponho que todos os habitantes de Odemira migrem para outros concelhos.
Mas nem tudo são más notícias!
Assim como aconteceu no caso dos pescadores que morreram a cinquenta metros da costa (eu aqui paro sempre para olhar para os metros...) também agora o ministério responsável vem apresentar novas medidas:
O ministério anunciou ainda a entrada em funcionamento de duas novas Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER), uma em Évora, e outra em Portalegre, além de um «plano da via verde coronária» e formação especializada às tripulações de ambulâncias do INEM e dos bombeiros.Quase que me apetece dizer, enquanto professor (e sublinho que disse quase), que espero que morra um professor vítima do desgaste psicológico ou da violência crescente nas escolas para que depois aquela senhora venha anunciar medidas...
O plano consiste num sistema de organização entre hospitais, ambulâncias e INEM, para a transferência de doentes coronários.
O Ministério da Saúde anunciou a entrada em funcionamento da segunda viatura médica de emergência e reanimação (VMER) no Alentejo, sedeada no Hospital de Évora (a escassos 150 quilómetros de Odemira), até ao final de Fevereiro (já sabem habitantes de Odemira, até fevereiro cuidado na estrada).
Antes de terminar tenho de fazer uma última referência. O senhor Vítor Almeida, presidente da Associação Portuguesa de Medicina de Emergência disse:
Fico assustado porque um inquérito serve para apurar responsabilidades, não para punir alguém, mas para melhorar um serviço que obviamente está a funcionar mal, já que um politraumatizado demora seis horas a chegar ao hospital... Fico envergonhado com a decisão do senhor ministro de não promover um inquérito.Vem este senhor, que está completamente fora do assunto dizer estas barbaridades! Sinceramente! Até já parece o representante do sindicato dos pescadores a falar a propósito das medidas que entendia urgentes!
Ainda bem que neste país ninguém dá ouvidos a quem percebe do assunto!
Assim falou
Touro Zentado
eram
23:32
1 Comentários
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Quem disse que a ciência se sobrepõe à tradição popular?
Há uns seis/sete anos atrás, dava eu aulas em Ponte da Barca, aconteceu de, numa aula de nono ano, se falar da variação das temperaturas entre a noite e o dia e um aluno, o Vítor, fez um comentário qualquer dizendo que tinha caído orvalho na noite anterior.
Habituado a este tipo de expressões - "está a orvalhar", "caiu muito orvalho/geada de noite" -da boca dos alunos apressei-me a corrigir aquilo que o Vítor acabara de dizer. Expliquei-lhe que o orvalho, assim como a geada, não caem, que se formam, por aí fora...
A reacção do Vítor foi, no mínimo de dúvida, no máximo de gozo!
Começou por assimilar o que lhe disse e, depois, perante tal disparate começou a rir!
Passei, então a tentar dar-lhe exemplos que, pensei eu, o ajudariam a perceber o que tinha explicado. Falei-lhe do espelho da casa de banho que fica embaciado quando tomamos banho, das lentes dos óculos que se embaciam quando entramos numa piscina... Nada!
Os colegas do Vítor já começavam a desesperar com a inflexibilidade dele. Alguns começaram a dizer-me para eu ignorar, para continuar a aula. Outros, achando piada ao confronto de ideias queriam que eu tentasse explicar ao Vítor (a verdade é que muitos queriam perceber também...).
Eu tentei. A sério que tentei. Mas os meus esforços foram em vão quando, com toda a certeza do mundo o Vítor disse o seguinte:
- Olhe professor, os meus pais dizem que o orvalho cai! Os meus avós dizem que o orvalho cai! Não é o professor que me vai convencer do contrário!
Perante tão firme e convicta afirmação... calei-me.
Umas aulas mais tarde, falava-lhes eu das principais cadeias montanhosas do nosso planeta, tentei impressioná-los dizendo que se colocássemos o Evereste no ponto mais profundo do Oceano Pacífico ainda lhe faltariam alguns quilómetros para chegar à superfície...
O que eu fui dizer!
Da sua mesa, e com o ar mais enfadado do mundo, diz o Vítor:
- Lá vem outra vez o stor com as suas teorias!
Assim falou
Touro Zentado
eram
11:10
1 Comentários
Qual gravidade qual carapuça!
Antes de vos contar o que pretendo impõe-se uma informação para as pessoas que visitam o blog e não me conhecem (umas duas ou três): eu sou professor de Geografia.
Posto isto aqui vamos nós.
Numa aula da semana que passou, enquanto tentava explicar o valor da latitude dos trópicos, uma aluna olhava intrigada para o globo que eu tinha nas mãos. Apercebi-me da cara de estranheza dela mas continuei a explicação que, no entanto, logo foi interrompida pela dita aluna com a dúvida que tanta confusão lhe causava.
- Ó stor, como é que as pessoas que vivem aí por baixo não caem?
Preparando-me para lhe dar a explicação de forma rápida e simples fui confrontado pela resposta da própria:
- É porque há um íman debaixo da Terra que nos atrai, não é?
Achando graça à explicação apresentada pela miúda resolvi brincar um bocadinho com a situação e disse-lhe:
- É isso Sofia! Sabes, quando nascemos os médicos dão-nos um golpe na planta dos pés e põem-nos umas placas de ferro por baixo da pele. Assim, como há muitos anos foi colocado um íman a uns cinquenta quilómetros de profundidade nós não corremos o risco de sair projectados para o espaço!
Bem, posso dizer-vos que as reacções variaram entre a gargalhada de alguns mais iluminados e o ar de dúvida e espanto dos restantes. A melhor reacção, ainda assim, foi da própria Sofia. Com um ar de quem ouve uma coisa absolutamente inesperada e até algo nojenta conseguiu dizer isto:
- Ui!!! Eu tenho ferros nos pés???
- Tens tu e temos todos Sofia! Se tiverem dúvidas quando chegarem a casa peguem numa faca e dêem um golpe na planta dos pés e vão ver!
Neste momento, e temendo uma manifestação de pais à porta da escola no dia seguinte acompanhada de linchamento, ou uma aula com uma turma inteira de pés ligados, resolvi repor a verdade.
Assim falou
Touro Zentado
eram
10:47
1 Comentários
sábado, janeiro 13, 2007
Nem sei que título devo dar...
Nuno Severiano Teixeira anunciou ainda o destacamento, durante o Inverno, de um helicóptero ligeiro Alouette III em permanência no Aeródromo de Manobra Número Um, em Ovar e que ainda este ano entrarão ao serviço três novas embarcações do Instituto de Socorros a Náufragos, a primeira das quais já no próximo mês de Maio.
O ministro anunciou ainda que, no quadro do novo Programa Operacional das Pescas, será dado apoio financeiro à formação dos pescadores e à modernização do equipamento de segurança das embarcações, como sondas, GPS, radares, coletes de salvação (?!?!?!), bóias e outros equipamentos de navegação.
Ainda bem que para isto só precisaram de morrer seis pescadores a cinquenta metros da costa depois de horas a pedir auxílio.
Assim falou
Touro Zentado
eram
00:27
0
Comentários
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Fila... (ou bicha)
O motivo pelo qual estou a escrever este texto tem a ver com a proximidade física entre as pessoas que estão na fila (ou bicha). Há pessoas que deixam um espaço considerável (é o meu caso) e há pessoas que estão tão perto de nós que lhes sentimos o hálito nas orelhas e os pêlos do nariz a fazer-nos cócegas no pescoço. Não me digam que nunca repararam nisso! Pior? Não me digam que são dessas pessoas! Pior ainda? Vocês até gostam? Absolutamente inacreditável? Nunca estiveram numa fila (sim... vocês já sabem)!
Quando estou em filas (ou bichas - no plural ainda não tinha escrito...) dou para pensar... São manias...
Hoje ao observar o fileiro(?!) (ou bicheiro(?!)) à minha frente reparei como ele fazia sombra à desgraçada da velhota que estava à frente dele. Imaginem que a senhora estava na fila (...) da P.T. a receber a informação de que os 245,54€ de factura eram de telefonemas para a Praça da Alegria e para o programa do bicha (ou fila?) do Goucha. Ou imaginem que estava na farmácia a pedir que lhe vendessem um comprimidinho só de Viagra porque fazia 50 anos de casada e queria fazer uma surpresa ao Sr. António. Ou imaginem que estava no laboratório de análises clínicas a entregar o frasquinho da urina que só tinha conseguido encher com a ajuda da Dona Rosalina, a vizinha...
Onde é que está a privacidade de uma pessoa quando se está numa fila (...ou... bicha...)?
Aqui entre nós... sabem o que é que eu acho que essas pessoas mereciam? Era levar com um daqueles bem fortes, não era? Ah? Ahhhh! Não se façam de despercebidos! Sabem bem do que estou a falar! Não concordam? Um daqueles assim bem... daqueles qu'até... assim coiso... com munto substrato... daqueles que até diz que está proibido pela Agência Nuclear... Hum? Eu sabia! Vocês também concordam comigo!
...Só esse que está aí mesmo atrás de vocês é que parece que não acha grande piada...
Assim falou
Touro Zentado
eram
23:24
3
Comentários
quinta-feira, dezembro 28, 2006
As Janeiras
O meu querido cão, que não recusa um desafio, começou logo a latir e, pela primeira vez em muito tempo, adorei ouvir o Rex ladrar de fúria!
O pobre do animal tem toda a razão!
Então isto faz-se?! Cantar as janeiras em dezembro? Eu bem sei que estamos em tempo de crise mas daí a cantar as janeiras em dezembro!...
Estava deitado no sofá a ler um rico livro de que falarei mais tarde e assim fiquei!
Não mexi nem um pelinho...
No final da cantoria ouvi um dos membros do gangue dizer um «obrigado» cheio de escárnio. Apeteceu-me ir à varanda e escarniar-lhes em cima!
Então suas excelências vêm incomodar as pessoas a suas casas - fora do tempo ainda por cima - e acham que nos devemos sentir obrigados a contribuir com o que quer que seja??? Que tal um rico balde de água fresquinha pelos ornamentos abaixo? Isto é que é ter lata hein???
Da próxima atiço-lhes o Rex! (se houvesse um smile com um sorriso diabólico era isso que eu poria aqui agora mesmo!)
Assim falou
Touro Zentado
eram
14:32
1 Comentários
O que, de facto, é importante
Eu até nem vou muito à bola com o homem mas que ele diz umas coisas acertadas, isso diz!
Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis. E um exército de professores explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição. Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho/mulherzinha de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima. Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!
João Pereira Coutinho
Assim falou
Touro Zentado
eram
14:25
0
Comentários
sábado, dezembro 09, 2006
Escrita com pena… de passarinho
Um poeta disse um dia vendo um homem no seu caminho: o lar do passarinho é o ar e não o ninho. Outro poeta disse mais tarde, ao ver o homem caminhar: o lar do passarinho é o ninho e não o ar. Agora digo eu, que não sou poeta, sendo homem que faz o caminho e que pelo caminho se faz: o lar do passarinho é o ninho, é o ar, é cada sítio em que pousar.
Dito assim soa bem. Até rima! Mas será que a mensagem chegou? Vou trocar para miúdos.
Há pessoas que se sentem em casa na descoberta, na procura, na novidade, na viajem. Seja por receio, seja por recreio, seja pelo seu recheio. Estas são as que o primeiro poeta aponta.
Há pessoas que se agarram às suas tradições, aos seus costumes, às suas famílias, às suas rotinas. Às suas raízes. Seja por conformismo, seja por confissão, seja por convicção. Esses são os que o segundo poeta identifica.
Eu acho que nós somos e nos fazemos com aquilo que deixamos que faça parte de nós. Somos uma mistura dos dois mundos…
Se eu me comparasse com um passarinho (preferia um dragãozinho pelas razões que vos são familiares) diria que os galhos onde pouso, os sítios por onde passo e os outros que conheço e a quem me dou a conhecer moldam-me enquanto pessoa que já era quando saí do meu ninho.
Desta forma, agora que me construo num sítio que já não é esse onde vos conheci, posso dizer-vos que as vossas vidas, as vossas personalidades, os vossos sorrisos, as vossas palavras, os vossos olhares me faltam mas me confortam.
Cada passo que damos nas nossas vidas é um passo para a frente (mesmo que não o pareça). Saibamos tirar o melhor partido dele para que, quanto mais não seja, percebamos o valor dos passos anteriores.
Aí nessa escola, a nossa escola, aprendi muitas mais coisas do que ensinei. Ganhei muito mais do que perdi (perdi muitos jogos à quinta-feira à noite mas ganhei pontos no sobrolho, por exemplo), recebi muito mais do que pude dar.
Vou contar-vos um segredo que daqui a três linhas já não o será mais. Quando aí pousou pela primeira vez este passarinho sentiu-se deslocado, só, triste. Não sei se os passarinhos choram mas este… este chorou! Vou contar-vos outro segredo… Quando daí levantou voo pela última vez este passarinho sentiu-se desolado, já não só, mas novamente triste…
Cada regresso à vossa companhia, à nossa escola, é um regresso a uma das minhas casas. Também vocês fazem parte dela e, recordem, ela faz parte do vosso caminho!
Assim falou
Touro Zentado
eram
09:55
0
Comentários
sexta-feira, dezembro 08, 2006
De vidas...
... Desde pequena. Momentos no parque infantil com a irmã e a companhia do pai. Os encontros de família nos aniversários dos avós. Os olhares simpáticos e ternurentos das tias. A mãe a aconchegar-lhe a roupa da cama e dar-lhe aquele beijo na fronte...
A brisa que ondulava os seus cabelos deu lugar a um vento que a agitava desajeitada como um boneco. O azul do céu matinal deu lugar ao reflexo do mesmo nas águas agitadas lá em baixo...
... A escola, os colegas, as amigas, as paixões. O rapaz que ela decidiu ser o da sua vida. O fim dos estudos. A universidade. As primeiras farras, as primeiras aventuras, as primeiras loucuras. O trabalho! Ahh!... o trabalho passou depressa. A incapacidade de se adaptar...
Os seus braços e as suas pernas moviam-se descoordenados. a roupa perdia a sua forma como uma bandeira num mastro ao vento...
... Aquele dia. Aquele dia e aquele telefonema. Estar longe de casa e saber o que é sentir-se impotente para ajudar a família. A sensação de perda. Os primeiros sinais. As segundas loucuras. O desespero...
De repente viu-se envolvida por água. Tudo ficou escuro. E frio. O coração, que já não estava habituado a reagir, apertou-se...
... A falta de rumo a que se sentiu jogada. As interrogações. O sentimento de apatia. O único sentimento que lhe restava. A decisão. A ponte.
Não foi capaz de aguentar mais. Os pulmões encheram-se de água. Os olhos abriram-se completamente. Os lábios formaram um leve sorriso. Recordava pela última vez os piqueniques com os pais e a irmã...
Assim falou
Touro Zentado
eram
10:58
1 Comentários
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Birrinhas...
O Carlinhos lá se decidiu a ir ao clube do Luisinho só que, quando chegou lá o Jaiminho, que é o presidente do clube, disse que não deixava o Carlinhos entrar em sala nenhuma porque o Marques, amigo do Carlinhos, se tinha esquecido de avisar...
Como o Carlinhos tinha vindo de longe o Marques achou que era uma falta de respeito e resmungou com o Jaiminho. O Osvaldinho veio dizer que a culpa era do Marques porque ele se tinha esquecido de avisar o Jaiminho...
Entretanto o Carlinhos, que tinha vindo ao clube do Luisinho não conseguia reunir com ninguém... Ahhh! Já me esquecia!... O Carlinhos tinha levado uns amigos com ele para a reunião no clube do Luisinho...
No clube do Luisinho, entretanto, o Marques lá arranjou um espaço no quarto dele para fazer a reunião só que um dos meninos que tinha de estar na reunião, o Osvaldinho, disse que não entrava ali... Os outros meninos que estiveram na reunião, o Nuninho, o Fernandinho e o Jorginho, além dos já referidos, criticaram o Osvaldinho por não ir à reunião e o Jaiminho por não arranjar uma sala para a reunião...
O Carlinhos achou que tinha mesmo de falar com o Osvaldinho e, portanto, foi falar com ele lá ao quarto deste...
Só falta mesmo dizer que o Paulinho e o Figueiredo deviam ter aparecido mas não lhes apeteceu...
As minhas conclusões pessoais desta pequena história são:
- Estas criancinhas são muito mimadas e por este andar, quando forem adultos e se não se emendarem, vão ser políticos! Ai é, é...
- Imaginem que isto acontecia no nosso país e com os nossos políticos! Que vergonha, não era?
Já agora... As personagens desta história são baseadas nos bem (ir)reais senhores:
Carlinhos - Eurodeputado do PSD - Carlos Coelho
Luisinho - Ministro dos Negócios Estrangeiros - Luis Amado
Jaiminho - Presidente da Assembleia da República - Jaime Gama
Marques - Representante do Grupo Parlamentar do PSD - Marques Guedes
Osvaldinho - Presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais - Osvaldo de Castro
Nuninho - Representante do grupo parlamentar do CDS/PP - Nuno Magalhães
Fernandinho - Representante do grupo parlamentar do BE - Fernando Rosas
Jorginho - Representante do grupo parlamentar do PCP - Jorge Machado
Paulinho - Ex-ministro da defesa - Paulo Portas
Figueiredo - Ex-ministro da administração interna - Figueiredo Lopes
Bertinho - Representante do grupo parlamentar do PS - Alberto Martins
Meninos que vieram à reunião com o Carlinhos - Eurodeputados estrangeiros da comissão de investigação dos voos da CIA (que devem ter ficado com uma excelente impressão da classe política portuguesa!...)
Assim falou
Touro Zentado
eram
20:50
0
Comentários
