Uma curta Vida longa
Ontem conheci, no ginásio que frequento, um senhor na casa dos setenta anos.
Eu estava preparar-me para começar a aula. Ele tinha terminado.
Começou a falar comigo. Aquele tipo de conversa de circunstância para quebrar o silêncio constrangedor.
Eu respondi-lhe por educação, já que não sou de muitas palavras e o senhor continuou a falar comigo. A determinada altura disse uma coisa que me despertou mais para a conversa:
- Sabe? A gente devia poder decidir quando partia. Íamos ao médico e diziamos que queriamos morrer dali a uns dias. Faziamos uma festa, divertiamo-nos, saíamos sem ninguém dar por ela, deitáva-mo-nos na nossa cama e pronto!
Achei graça à ideia e concordei com um sorriso. Antes que pudesse dizer alguma coisa o senhor falou mais uma vez, desta vez com um sorriso triste e conformado na expressão:
- Sabe, quando se chega à minha idade vê-se uma lista tão grande de coisas que ainda se quer fazer! E o tempo foge-nos por entre os dedos!...
Mais uma vez concordei. Se eu penso, aos meus trinta anos, que já vivi três décadas e acho que a vida humana é curta então o que fará aquele senhor!
- Olhe que mesmo que compreenda o que lhe digo só vai perceber realmente quando chegar a esta idade!...
De novo a força da realidade impediu-me de dizer o que quer que fosse!
O senhor ficou pensativo por uns instantes. Eu também. Eu pensava: pobre homem! Vê a vida a acabar-se-lhe! Ele pensava: Pobre rapaz! Só vai perceber o valor do que tem quando o perder...
- Gostava de poder ouvir todos os dias o que os meus pais sempre me disseram! Não tive a oportunidade de gravar as vozes deles!... Agora restam-me as memórias... Tem filhos?
- Não - disse-lhe eu - mas espero ter.
- Quando tiver, filme-os! Grave-os! Mas grave-se a si também! Vai ver que eles lhe vão agradecer!...
Sorri mais uma vez. Neste momento sentia-me um neto sentado no colo do avô... Guardava cada frase e cada expressão que aquele rosto gasto me dava.
- Mas, sabe uma coisa? - O senhor mudou de registo, de repente - É preciso que se agarre à vida com tudo! Há dois anos sofri um AVC! Não falava, não me mexia... Nem conhecia a minha mulher! - a cara dele era todo um ponto de exclamação - Mas agarrei-me à vida! Quero viver! Ontem, pela primeira vez desde há muito tempo, consegui escrever uma carta em cinco minutos! - A insignificância de escrever uma simples carta em cinco minutos transformou-se, ao ouvir aquele homem, numa epopeia!
Senti o orgulho dele como se sente o calor do sol matinal. Que bom ver uma pessoa da idade daquele senhor a sorrir, a lutar, a amar cada minutinho...
Cada vez que abrimos os olhos de manhã...
Cada vez que fazemos pequenas coisas...
Cada vez que o mundo nos surpreenda...
Eu estava preparar-me para começar a aula. Ele tinha terminado.
Começou a falar comigo. Aquele tipo de conversa de circunstância para quebrar o silêncio constrangedor.
Eu respondi-lhe por educação, já que não sou de muitas palavras e o senhor continuou a falar comigo. A determinada altura disse uma coisa que me despertou mais para a conversa:
- Sabe? A gente devia poder decidir quando partia. Íamos ao médico e diziamos que queriamos morrer dali a uns dias. Faziamos uma festa, divertiamo-nos, saíamos sem ninguém dar por ela, deitáva-mo-nos na nossa cama e pronto!
Achei graça à ideia e concordei com um sorriso. Antes que pudesse dizer alguma coisa o senhor falou mais uma vez, desta vez com um sorriso triste e conformado na expressão:
- Sabe, quando se chega à minha idade vê-se uma lista tão grande de coisas que ainda se quer fazer! E o tempo foge-nos por entre os dedos!...
Mais uma vez concordei. Se eu penso, aos meus trinta anos, que já vivi três décadas e acho que a vida humana é curta então o que fará aquele senhor!
- Olhe que mesmo que compreenda o que lhe digo só vai perceber realmente quando chegar a esta idade!...
De novo a força da realidade impediu-me de dizer o que quer que fosse!
O senhor ficou pensativo por uns instantes. Eu também. Eu pensava: pobre homem! Vê a vida a acabar-se-lhe! Ele pensava: Pobre rapaz! Só vai perceber o valor do que tem quando o perder...
- Gostava de poder ouvir todos os dias o que os meus pais sempre me disseram! Não tive a oportunidade de gravar as vozes deles!... Agora restam-me as memórias... Tem filhos?
- Não - disse-lhe eu - mas espero ter.
- Quando tiver, filme-os! Grave-os! Mas grave-se a si também! Vai ver que eles lhe vão agradecer!...
Sorri mais uma vez. Neste momento sentia-me um neto sentado no colo do avô... Guardava cada frase e cada expressão que aquele rosto gasto me dava.
- Mas, sabe uma coisa? - O senhor mudou de registo, de repente - É preciso que se agarre à vida com tudo! Há dois anos sofri um AVC! Não falava, não me mexia... Nem conhecia a minha mulher! - a cara dele era todo um ponto de exclamação - Mas agarrei-me à vida! Quero viver! Ontem, pela primeira vez desde há muito tempo, consegui escrever uma carta em cinco minutos! - A insignificância de escrever uma simples carta em cinco minutos transformou-se, ao ouvir aquele homem, numa epopeia!
Senti o orgulho dele como se sente o calor do sol matinal. Que bom ver uma pessoa da idade daquele senhor a sorrir, a lutar, a amar cada minutinho...
Cada vez que abrimos os olhos de manhã...
Cada vez que fazemos pequenas coisas...
Cada vez que o mundo nos surpreenda...
8 comentários:
Fantástico.
É engraçado como certos encontros circunstanciais nos colocam a pensar na vida e nas coisas realmente importantes.
A verdade é que damos pouco valor às nossas vidas! (e eu sou uma dessas pessoas!!!)
Mas, como costuma dizer o povo: "Acordar com os pés a mexer é uma felicidade!".
Basta uma pancada com a cabeça no sítio "certo" (!!!) e deixamos de falar, ou de sentir, ou de ouvir... a vida é tão frágil que é preciso aproveitar as mais pequenas coisas!
Bela história. Imagino o que aprendeste com ela.
Há duas coisas que tenho medo:
- a morte;
- a velhice.
Já passei por fases em que me sentia mal com a minha idade (32), cheguei até a chorar. Pensava que tudo isto era irreal e dizia a mim mesmo: "Porra, mas tu ainda há pouco tempo tinhas 20 anos e derrepente já tens 30?!?". Foi muito duro perceber que já não era um miúdo e que a minha vida exigia de mim que eu fosse realmente adulto e responsável. Espero um dia não sofrer como esse velhote sofre... só ele sabe o que sente. E sim, porque não fazer uma festa antes de "programar" a nossa morte? E filmar tudo... para memória futura!
Já perdi 2 entes queridos de uma forma que não desejava. Soube, no momento em que me despedia deles, que era o último momento que os estava a ver com vida. Se eu pudésse voltar atrás no tempo, tinha filmado algo ou tirado uma foto...
A história é boa, sim senhor.
Mas o que há a reter neste post é que tu estás a ir ao ginásio!
Isso é que me surpreende!
Sempre pensei que não te deixásses contagiar por essa coisa...
Desde já me despeço dos teus pneus...
lol
Por estes motivos que enunciaste e por muitos mais, que todos os dias agrdeço o facto do meu avô viver comigo e sinceramente isso faz-me aproveitar cada minutinho de vida( dai alguns afirmarem que eu sou uma "amostra de gente" que nao para);e aproveitar cada segundo que tou com ele. De certa forma aprendi com ele a conquistar os dias, porque como ele diz:" nao sei se amanha ando por cá!"
esta história, nem preciso de dizer o quão fantástica é...
peço desde já...permissão para a por no meu blog c os devidos créditos apenas para que amigos meus possam ler...
Mas claro Bernardo! Fico muito grato por isso! :)
Touro, oh pá! Comoveste-me. Porra. Mas também, sou aquela gaja que chora a ver o Bambi, por isso...
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