Corações Envergonhados
Há duas semanas fui ao Dragão com a Nathalia. Fomos ver o nosso Porto.
No final do jogo fomos até ao Dolce Vita comer qualquer coisa.
Acabado o jantar, apeteceu-nos comer qualquer coisa doce. Um pequeno capricho.
Enquanto a Nathalia foi buscar um gelado eu fiquei na fila de uma pastelaria sem saber bem o que queria. Foi nessa hora que aconteceu.
Um homem que devia ter mais ou menos a minha idade aproximou-se. Era loiro, tinha o cabelo grande e preso atrás. Trazia uma mochila tinha um olhar imensamente triste.
Começou a falar, num português perfeitamente aceitável mas com um denunciador sotaque de leste.
Disse que não tinha emprego. Que não tinha onde dormir. Mostrou a bomba e disse que era asmático mas que não tinha dinheiro para comprar a medicação.
Nesta altura eu olhava para ele. Acho que olhei para ele para lhe mostrar que o ouvia. Que não estava a falar para as paredes.
Ele dirigiu o seu desabafo com os olhos para mim. Disse que tinha vergonha de pedir. Disse que tinha medo...
Naquele momento o meu coração apertou-se muito. Quis ajudá-lo. Quis falar-lhe. Quis dar-lhe um amparo. E não fiz nada disso. A minha vontade não conseguiu sobrepôr-se à minha estupidez. Dentro de mim uma irritante voz perguntou-me se ele não estaria a mentir. Outra voz igualmente estúpida e embaraçosamente minha disse-me: Já viste que as outras pessoas te vão achar um otário?
E estas duas vozes bloquearam-me as pernas. Bloquearam-me a voz. Bloquearam-me o coração.
Ele disse um obrigado desconsolado e continuou a sua via sacra.
Saí da fila. Tinha perdido o apetite. Acompanhei o percurso do homem com o olhar. Assisti às constantes negações de que foi alvo. Pior. Assisti à ignorância a que muitos o votaram.
Senti-me e sinto-me uma besta porque não fui capaz de fazer aquilo que, bem vistas as coisas, era a única coisa que podia, queria e devia fazer.
Eu, como todas as outras pessoas que antes e depois de mim não o ajudaram. Eu, como todas as outras pessoas que, perante os necessitados, fazem o mesmo, sou uma besta.
Nesse dia disse à Nathalia que, se um dia for pai, espero não dar tão grande exemplo de falta de humanidade aos meus filhos. Como me olhariam eles se eu fizesse o mesmo? Como me olharia eu se estivesse no lugar daquele homem?
Porque deixamos que os nossos corações se escondam com vergonha?
Porque temos pressa de esquecer as coisas que nos incomodam?
No final do jogo fomos até ao Dolce Vita comer qualquer coisa.
Acabado o jantar, apeteceu-nos comer qualquer coisa doce. Um pequeno capricho.
Enquanto a Nathalia foi buscar um gelado eu fiquei na fila de uma pastelaria sem saber bem o que queria. Foi nessa hora que aconteceu.
Um homem que devia ter mais ou menos a minha idade aproximou-se. Era loiro, tinha o cabelo grande e preso atrás. Trazia uma mochila tinha um olhar imensamente triste.
Começou a falar, num português perfeitamente aceitável mas com um denunciador sotaque de leste.
Disse que não tinha emprego. Que não tinha onde dormir. Mostrou a bomba e disse que era asmático mas que não tinha dinheiro para comprar a medicação.
Nesta altura eu olhava para ele. Acho que olhei para ele para lhe mostrar que o ouvia. Que não estava a falar para as paredes.
Ele dirigiu o seu desabafo com os olhos para mim. Disse que tinha vergonha de pedir. Disse que tinha medo...
Naquele momento o meu coração apertou-se muito. Quis ajudá-lo. Quis falar-lhe. Quis dar-lhe um amparo. E não fiz nada disso. A minha vontade não conseguiu sobrepôr-se à minha estupidez. Dentro de mim uma irritante voz perguntou-me se ele não estaria a mentir. Outra voz igualmente estúpida e embaraçosamente minha disse-me: Já viste que as outras pessoas te vão achar um otário?
E estas duas vozes bloquearam-me as pernas. Bloquearam-me a voz. Bloquearam-me o coração.
Ele disse um obrigado desconsolado e continuou a sua via sacra.
Saí da fila. Tinha perdido o apetite. Acompanhei o percurso do homem com o olhar. Assisti às constantes negações de que foi alvo. Pior. Assisti à ignorância a que muitos o votaram.
Senti-me e sinto-me uma besta porque não fui capaz de fazer aquilo que, bem vistas as coisas, era a única coisa que podia, queria e devia fazer.
Eu, como todas as outras pessoas que antes e depois de mim não o ajudaram. Eu, como todas as outras pessoas que, perante os necessitados, fazem o mesmo, sou uma besta.
Nesse dia disse à Nathalia que, se um dia for pai, espero não dar tão grande exemplo de falta de humanidade aos meus filhos. Como me olhariam eles se eu fizesse o mesmo? Como me olharia eu se estivesse no lugar daquele homem?
Porque deixamos que os nossos corações se escondam com vergonha?
Porque temos pressa de esquecer as coisas que nos incomodam?
13 comentários:
Na minha opinião porque se dá muita importância ao que os outros pensarão. Certamente se estivesses sozinho terias ajudado. Acho que esta é uma sociedade de aparência. Falsa aparências.
Será que necessitamos da aprovação dos outros mesmo quando não os conhecemos? Que pensem que somos otários aqueles que verdadeiramente são nossos amigos sabem e conhecem-nos como somos não temos de fingir ser algo ou alguém que não somos.
Imagens leva-as o vento ficam as recordações do que poderiamos ter feito e daquilo que a nossa consciencia dita. É com esta, consciencia, que iremos viver
Incrivel... revejo-me nesta situação muitas vezes.
Nutrimos depois um sentimento de culpa, de ódio... um sentimento que, até agora, foste o único que o conseguiu explicar!
Também eu às vezes não ajudo alguém por pudor, por imaginar que me vão chamar otário.
Um professor meu deu-me uma vez um exemplo que se passou com ele, exemplo que mostra como somos pouco solidários e muito egoístas. Ao dar uma moeda a um mendigo, a sua filha perguntou-lhe: "Ó pai, porque é que nunca dás notas?!"
Às vezes compramos merdas que não valem nada e gastamos as "notas" sem pensar duas vezes, se for para ajudar um necessitado: "eh pá, ainda me vão chamar anjinho!"
Desculpa alongar-me mas, há semanas, o El-Gee do Mais De Mil Vozes (conheces?), fez um post que me incomodou. O post falava daqueles que pedem esmola e que, supostamente, "têm bom corpo para trabalhar." O El-Gee contou uma história com um despreso e raiva para com os miseráveis que me deixou revoltado. Insensibilidade.
Passa por lá, aquilo tem muitos comentários por que o post foi polémico:
http://maisdemilvozes.blogspot.com/2007/04/lembrei-me-agora-de-uma-histria.html
Cumprimentos.
Pelo menos vc não esqueceu depois de 2 semanas. Quem sabe a sua próxima reacção não vai ser diferente? :o)
Porque vemos neles o medo de um futuro que por trapaças da vida podemos um dia vir a ter. Negar isso é negar que possa acontecer connosco. O nosso medo e vergonha leva-nos a ter atitudes que queríamos que não nos pertencessem.
Não podemos ajudar todas as pessoas que nos abordam na rua a estender a mão, isso é trabalho do Serviço Social, (às vezes, muitas, aliás, nem o Serviço Socil!) - e falo enquanto técnica de serviço social , é esta a minha formação académica.
Mas ainda bem que demonstras interesse e preocupação porque há coisa que todos, enquanto sociedade civil - podemos fazer para ajudar.
Por Ex, se tiveres disponibilidade podes fazer voluntariado. Há um excelente site portugues de voluntariado, (muito bem organizado e diversificado), em que te podes inscrever. (esqueci-me do nome, mas 1 busca rápida no google leva-te lá).
Abraços!
Astuto...eu li esse blog e deixa q te diga q, embora ñ usasse a expressão q o outro tipo disse...há por aí gajos q podiam mto bem tar a trabalhar e ñ a pedinchar por tudo e por nada!! Há casos e casos e sim, cabe a nós termos q decidir numa nesga d segundos se d facto, aquela ou outra pessoa precisa e está a ser sincera na esmola q pede...mas depois, há malta q pura e simplesmente, faz dos outros parvos!!!
Pois...
Não sei bem que diga sobre isso...
Acho que o principal é que no final do dia te sintas bem contigo e em paz com a tua consciência.
Mesmo que isso implique ser otário, mesmo que te chamem anjinho, mesmo que ajudes cem pessoas e apenas uma mereça realmente essa ajuda.
Custa-nos muito ser enganados, custa-nos ser usados pelos outros, custa-nos dar sem,de facto, saber se o outro precisa ou merece.
Somos profundamente egoístas (e eu, contra mim falo!)
Na ânsia de tudo vivermos esquecemos os outros que vivem com menos que nós. No desespero de tudo querermos, concentramo-nos em nós e no nosso umbigo... Na fuga prá frente esquecemos que, como diz o principezinho, "o essencial é invisível aos olhos"
Essas vozes que ouviste demonstram apenas a tua natureza humana. A verdade é que há muita gente por aí que finge estar a passar necessidade para não fazer nada e ganhar dinheiro.
Sempre que me pedem dinheiro, eu penso que secalhar estão a enganar-me. Quando os olhos me parecem mais sinceros dou o que posso, quando acho que têm um toque de sacanice, não dou.
Julgo que já aconteceu a muita gente a mesma situação que a tua. Infelizmente como há tanta gente que se aproveita disto para ganhar algum, sabe-se lá para quê, estamos sempre de pé atrás...
Mas deveríamos sempre fazer as coisas com o melhor das intenções, aquilo que o nosso coração mandasse. Assim de certeza o mundo seria melhor.
Mas não te martirizes, surgirão outras oportunidades para ajudar o próximo.
Numa situação parecida a essa ofereci-me para ir com ele à farmácia. Virou-me as costas e saiu do estabelecimento.
... há de tudo!
:(
como todos os dias voltei o tipico homem "desgraçado" a pedir na rua...mts vezes n tive coragem de dar nada mas naquele dia decidi que se não queria contribuir para a dose de droga.... ia dar comida,
olhei para o lanche que tinha preparado para eu comer nessa manha mas achei o pão um pouco amassado e que podia dar melhor!!!
entrei na primeira pastelaria e ... depois de muita escolha comprei o lanche mais recheado e completo que lá tinha,achei que esse era o ideal! quando cheguei ca fora perto do pedinte orgulhosa da minha decisão, e estendi o bolo e leite achocolatado ele aceitou o leite negando o bolo dizendo que nao gostava .... mas que aceitava 20 centimos para o pao....
A principio fiquei revoltada e triste MAS depois ... percebi que chegar ao ponto de estar nas ruas e pedir, estar em desespero por alimento ou pior o desespero por uma substancia que nos mata aos poucos é futuro que ninguem quer!!
MAS ESTA GENTE É PESSOA COMO NOS QUE POR QUALQUER RAZAO A VIDA LHES VIROU AS COSTAS, se nao queremos dar dinheiro... um alimento pode fazer a diferença e mesmo que rejeitem outro dia virá em que alguem esta desesperadamente a espera de um consolo de um alimento que abunda nas nossas despensas!
TAMBÉM PASSEI POR ESSA SITUAÇÃO VÁRIAS VEZES. EM ALGUMAS OCASIÕES DEI A AJUDA E EM OUTROS NÃO. DEPENDE MUINTO DO MOMENTO,DA ANÁLISE QUE FAZEMOS DA PESSOA.
VLW.
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