25 de Abril
Não vivi o 25 de Abril mas tenho saudades.
Tenho saudades das expressões felizes das pessoas viram as portas da liberdade abrirem à sua frente.
Tenho saudades dos sonhos que se sonhavam nessa altura.
Tenho saudades da forma como todos acreditavam no futuro.
Tenho saudades de como as pessoas não se inibiam de pensar. De dizer. Dizer o que pensavam em vez de pensar no que diriam.
Tenho saudades de quando as pessoas arregaçavam as mangas e arrepiavam caminho.
Tenho saudades de quando as pessoas sabiam que a sua liberdade era sua e de mais ninguém e a dos outros apenas aos outros dizia respeito.
Tenho saudades de quando as pessoas lutavam.
Tenho saudades de quando as pessoas andavam de cabeça erguida na rua e se viam, olhavam, sorriam e cumprimentavam.
Tenho saudades de quando as pessoas viviam umas pelas outras.
Tenho pena do 25 de Abril.
Não o vivi o 25 de Abril e por isso tenho pena.
Tenho pena de tratarmos tão mal o que outros conseguiram.
Tenho pena de ver as pessoas infelizes e a suspirar enquanto dizem que antigamente é que era bom.
Tenho pena porque hoje já não se sonha.
Tenho pena porque as pessoas já não acreditam.
Tenho pena que as pessoas se inibam de opinar. Tenho pena que as pessoas não se dêem ao trabalho de pensar e, portanto, não tenham o que dizer.
Tenho pena porque as pessoas acham que não vale a pena fazer um esforço.Acomodam-se. E fazem pouco de quem acha que vale.
Tenho pena que as pessoas não respeitem a sua liberdade. Não respeitem a liberdade dos outros. Deixem que os outros abusem da sua.
Tenho pena porque as pessoas já não lutam.
Tenho pena porque hoje as pessoas andam cabisbaixas, não se olham, não se cumprimentam, não se falam, não se sorriem.
Tenho pena porque hoje cada um vive por si e para si.
Faz-me falta um novo 25 de Abril. Faz-nos falta...










